Nas margens ancestrais do Rio
Calçoene, o tempo já correu em sinfonia. Ali vivia Ubiraci, um curumim cujo
coração batia no ritmo da floresta. Abençoado por Tupã, ele possuía o dom da
"Grande Escuta": conversava com o sussurro das samambaias, entendia o
dialeto dos peixes e traduzia o conselho das árvores milenares que tentavam
tocar o céu. Para Ubiraci, o mundo não tinha segredos, apenas diálogos.
Tudo mudou em uma tarde de luz
âmbar. Entre os reflexos das pedras, ele viu o que nenhum homem poderia
possuir: a personificação da própria existência. Uma menina cujos cabelos eram
cascatas vivas e cujos olhos guardavam o azul profundo do infinito. Suas mãos
não apenas tocavam o mundo; elas o criavam. Seus dedos comandavam as marés e
faziam brotar sementes do solo seco. Ubiraci, sem compreender que contemplava a
face da Natureza, apaixonou-se pelo todo, tentando aprisioná-lo em uma forma
humana.
Dominado por essa obsessão, o índio cometeu seu maior erro: parou de ouvir. Na ânsia de encontrar a amada por entre as nuvens e as profundezas dos rios, ele ignorou o canto dos pássaros e o chamado das raízes. O dom que Tupã lhe dera secou como uma fonte esquecida. Ubiraci tornou-se surdo para a floresta e mudo para as águas. Ele buscava a Natureza em todos os lugares, sem perceber que ela sempre estivera dentro dele e em cada brisa que lhe beijava o rosto.
