Nas margens ancestrais do Rio
Calçoene, o tempo já correu em sinfonia. Ali vivia Ubiraci, um curumim cujo
coração batia no ritmo da floresta. Abençoado por Tupã, ele possuía o dom da
"Grande Escuta": conversava com o sussurro das samambaias, entendia o
dialeto dos peixes e traduzia o conselho das árvores milenares que tentavam
tocar o céu. Para Ubiraci, o mundo não tinha segredos, apenas diálogos.
Tudo mudou em uma tarde de luz
âmbar. Entre os reflexos das pedras, ele viu o que nenhum homem poderia
possuir: a personificação da própria existência. Uma menina cujos cabelos eram
cascatas vivas e cujos olhos guardavam o azul profundo do infinito. Suas mãos
não apenas tocavam o mundo; elas o criavam. Seus dedos comandavam as marés e
faziam brotar sementes do solo seco. Ubiraci, sem compreender que contemplava a
face da Natureza, apaixonou-se pelo todo, tentando aprisioná-lo em uma forma
humana.
Dominado por essa obsessão, o índio cometeu seu maior erro: parou de ouvir. Na ânsia de encontrar a amada por entre as nuvens e as profundezas dos rios, ele ignorou o canto dos pássaros e o chamado das raízes. O dom que Tupã lhe dera secou como uma fonte esquecida. Ubiraci tornou-se surdo para a floresta e mudo para as águas. Ele buscava a Natureza em todos os lugares, sem perceber que ela sempre estivera dentro dele e em cada brisa que lhe beijava o rosto.
Em uma noite de silêncio
absoluto, ele viu o reflexo da Lua prateando o Calçoene. Acreditando que sua
amada o chamava do fundo do espelho d’água, mergulhou com o que restava de suas
forças. Mas a correnteza, outrora sua amiga, agora era um gigante indomável.
Ubiraci entregou o sopro de vida ao rio, sucumbindo à própria cegueira.
Tupã, movido pela pureza daquela
dor, não permitiu que ele desaparecesse. Transformou o corpo do guerreiro em
uma árvore solitária no meio do leito do rio. Contudo, a alma de Ubiraci ainda
buscava o impossível. À noite, a árvore desprendia suas raízes e, desafiando as
leis do mundo, navegava rio acima, contra a correnteza, em uma eterna busca
pelo reflexo lunar.
Assustados pela magia, os homens
cortaram seus galhos, restando apenas um tronco resiliente: o Tarumã, o tronco
que se move.
Hoje, Calçoene é cidade, mas o
mistério permanece. Dizem que o Tarumã ainda percorre as águas escuras,
navegando contra o fluxo do tempo e da razão. Ele se tornou o guardião dos
amores desesperados. Quem deposita uma oferenda em sua madeira castigada faz um
pacto com o espírito da floresta: se o tronco subir o rio e retornar vazio, o
impossível se tornará real, e o amor, assim como a árvore que navega,
encontrará o seu caminho.

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