Esta é uma crônica inspirada nas
tradições teológicas e apócrifas, situada em um ponto crucial da história
humana: a Era das Grandes Transições (por volta do século I d.C.), quando o
mundo antigo começava a ruir para dar lugar a uma nova era de fé e pensamento.
O Conselho do Trono: A Grande
Dispersão
No Reino do Inefável, o Criador
convocou os Sete que "assistem diante de Sua face". O cosmos estava
em desalinho; o coração humano, outrora simples, tornara-se um labirinto de
dúvidas. Deus lhes deu uma única diretriz: "Sede os pilares invisíveis
sobre os quais a esperança se sustenta."
1. Miguel: O Guardião da
Fronteira
Tempo: Noite de uma batalha
esquecida no Oriente Médio.
A Missão: Impedir que o desespero
se tornasse uma entidade física no campo de batalha.
Detalhes: Enquanto generais
moviam peças de marfim, Miguel não lutava contra homens, mas contra as sombras
que se alimentavam do ódio. Sua característica foi a Intervenção Silenciosa.
Ele não empunhou uma espada de ferro, mas cobriu os feridos com uma luz azulada
que impedia a entrada do medo, garantindo que a honra não morresse antes do
corpo.
2. Gabriel: O Tecelão do Destino
Tempo: O alvorecer na Judéia, em
uma vila de carpinteiros.
A Missão: Traduzir o Infinito
para a linguagem humana.
Detalhes: A missão de Gabriel foi
a Revelação. Ele precisava tocar a mente de uma jovem e de um velho sacerdote
sem queimar-lhes a sanidade com sua glória. Ele se revestiu de uma forma humana
quase translúcida, e suas palavras foram como música. Sua missão era plantar a
semente da mudança histórica através do anúncio do Messias.
3. Rafael: O Viajante das
Estradas Empoeiradas
Tempo: As rotas comerciais entre
o Egito e a Mesopotâmia.
A Missão: A cura da alma através
do corpo.
Detalhes: Rafael assumiu a forma
de um guia cego com um cajado de madeira viva. Ele não curava com milagres
espalhafatosos, mas ensinava as pessoas a encontrar ervas na beira do caminho e
a perdoar seus pais. Sua característica foi a Companhia: ele provou que Deus
não está apenas no alto, mas no pó da estrada.
4. Uriel: O Vigilante da
Biblioteca de Alexandria
Tempo: O auge do conhecimento
grego e egípcio.
A Missão: Proteger a chama da
inteligência contra o fanatismo.
Detalhes: Uriel, o "Fogo de
Deus", habitava os corredores de papiro. Sua missão foi a Iluminação.
Quando mentes brilhantes entravam em bloqueio ou sombras de ignorância tentavam
queimar o saber, Uriel soprava uma centelha de intuição. Ele era o
"eureka" nos lábios dos filósofos, garantindo que a ciência e a fé
não se separassem tão cedo.
5. Selaphiel: O Eco das
Cavernas
Tempo: O deserto do Sinai, onde
eremitas buscavam o silêncio.
A Missão: Recolher os suspiros de
quem não sabe como orar.
Detalhes: Selaphiel tinha a
missão da Intercessão. Ele se sentava ao lado dos aflitos que haviam perdido as
palavras. Quando um homem chorava em silêncio por um filho doente, Selaphiel
traduzia aquelas lágrimas em frequências celestiais, levando-as diretamente ao
Trono. Ele era o anjo que ensinava o ritmo da respiração sagrada.
6. Jegudiel: O Sustento dos
Escravos nas Minas
Tempo: As minas de sal e
pedreiras do Império Romano.
A Missão: Devolver a dignidade ao
trabalho exaustivo.
Detalhes: Jegudiel carregava uma
coroa de ouro e um chicote de luz — mas o chicote era para espantar os demônios
da apatia. Sua missão era o Reconhecimento. Ele sussurrava no ouvido dos
operários explorados que cada pedra carregada com amor era um tijolo na
Jerusalém Celestial. Ele trazia o sentido para o esforço que o mundo
considerava inútil.
7. Barachiel: O Senhor das
Colheitas Inesperadas
Tempo: Vilarejos assolados pela
fome na orla do Mediterrâneo.
A Missão: A distribuição da sorte
e do consolo.
Detalhes: Barachiel era o anjo das flores e das bênçãos. Sua característica era a Providência. Quando uma viúva encontrava uma moeda de prata no fundo de um pote vazio, ou quando uma chuva caía exatamente sobre o campo que estava morrendo, era Barachiel agindo. Ele transformava o acaso em milagre, lembrando aos homens que a generosidade da terra é um reflexo do céu.
Conclusão da Missão:
Diz-se que, ao final desse ciclo, os sete se reencontraram no topo do Monte
Hermon. Eles não deixaram a Terra; apenas mudaram de forma. Miguel ainda vigia,
Gabriel ainda comunica, e a cura de Rafael ainda flui por mãos humanas.

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