Os antigos povos da
Amazônia contam que a samambaia é uma planta encantada, guardada pelos
espíritos da floresta. Ela nunca floresce como as outras plantas…
exceto em uma única noite
do ano: a noite da Lua Grande, quando o céu fica prateado e os rios parecem
espelhos.
Nessa noite sagrada, no
coração da mata, nasce a Flor da Samambaia, brilhando como fogo de vaga-lume.
Seu perfume é tão suave que só quem caminha em silêncio consegue senti-lo.
Dizem que a flor concede
um dom especial a quem a encontra:
o poder de compreender os
sinais da natureza —
o aviso do vento, a fala
dos pássaros e o lamento das árvores.
Mas muitos que tentaram
encontrá-la se perderam, pois a floresta só revela seus segredos a quem entra
com respeito.
Certa vez, um jovem
indígena chamado Araci saiu da aldeia guiado por um sonho. No sonho, um
beija-flor dizia:
— A flor só aparece para quem não deseja riqueza, mas sabedoria.
Araci caminhou a noite
inteira sem cortar folhas, sem fazer barulho, pedindo permissão à mata. Quando
a lua chegou ao ponto mais alto do céu, ele viu um clarão azul entre as
samambaias
Ali estava a flor
encantada.
Araci ajoelhou-se e não
tocou nela. Apenas agradeceu à floresta por sua beleza.
Então a flor se abriu
como um pequeno sol e deixou cair uma gota de luz em sua testa. Naquele
instante, Araci passou a entender o idioma da floresta:
O rio lhe ensinou a
cuidar da água.
As árvores lhe pediram
proteção.
Os animais confiaram nele
seus caminhos secretos.
Quando a flor desapareceu
com o nascer do dia, Araci voltou para a aldeia transformado em guardião da
natureza. Tornou-se pajé e ensinou seu povo a viver em equilíbrio com a mata.
Desde então, dizem que: a
Flor da Samambaia só nasce para quem tem coração limpo e respeito pela floresta
e que quem tenta arrancá-la perde-se nos caminhos encantados da Amazônia.
E até hoje, nas noites de
lua cheia, há quem veja um brilho azul entre as samambaias e escute um
sussurro:
— Cuide de mim, e eu
cuidarei de você.
Segundo o mito, esta flor
desabrocha por um curtíssimo período na véspera do solstício de verão
(celebrado em 21, 23 e 24 de junho ou, às vezes, em 7 de julho). Ela traz
fortuna a quem a encontra. Em alguns contos, permite aos humanos compreender a
fala dos animais. É zelosamente guardada por espíritos malignos e, embora quem
consiga colhê-la possa receber riquezas terrenas, essa conquista sempre trouxe
má sorte, por isso alguns a deixam em paz.

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