No
vilarejo de Pedra Altas, onde as sombras das montanhas pareciam ter vida
própria, vivia Dona Adelaide. Ela não era médica, nem mística de profissão, mas
todos sabiam que sua varanda era o último refúgio contra os males que a
medicina dos homens não explicava. Naquela varanda, em um vaso de barro
descascado, crescia a rainha da casa: uma arruda viçosa, de folhas miúdas e um
verde acinzentado que parecia brilhar sob o luar.
Dona
Adelaide dizia que aquela planta não tinha sido plantada, mas
"convidada". "A arruda é o cão de guarda do invisível",
sussurrava para os netos. "Ela não morde a carne, ela morde a
intenção".
Certa
tarde, o silêncio da vila foi quebrado pela chegada de um homem elegante, vindo
da capital. Chamava-se Heitor. Ele trazia consigo um sorriso largo, mas seus
olhos eram opacos, como se carregassem uma poeira antiga. Heitor viera para
comprar as terras da velha fazenda vizinha à casa de Adelaide, com planos de
derrubar as matas e erguer um hotel de luxo.
Assim
que Heitor pisou no portão da senhora para pedir informações, algo estranho
aconteceu. O vento, que soprava suave, cessou subitamente. O aroma acre e
pungente da arruda subiu pelo ar como um grito silencioso. No exato momento em
que Heitor estendeu a mão para cumprimentar Adelaide, um estalo seco ecoou.
Heitor
não percebeu, mas Adelaide viu: o galho mais forte da arruda, que até então
apontava para o céu, pendeu bruscamente para o lado, como se tivesse sido
atingido por uma pedra invisível.
— Entre, moço — disse ela, com a voz cautelosa. — Mas limpe os pés e o espírito antes de cruzar o umbral.
